Quando a mente cria personagens para sobreviver
Talvez você já tenha visto isso no cinema. Uma pessoa que, de repente, muda completamente de comportamento, voz, postura, como se outra “personalidade” tivesse assumido o controle. Às vezes, essas mudanças vêm acompanhadas de violência, genialidade fora do comum ou habilidades quase sobre-humanas. A cena é impactante, prende a atenção e, de certa forma, ajuda a construir uma imagem muito específica sobre o que seria o transtorno dissociativo de identidade.
Mas existe uma distância importante entre o espetáculo e a realidade.
Então, para começar, precisamos perguntar “isso existe?”, “é da forma como os filmes nos mostraram?”.
O nome popular e o que ele esconde
Durante muito tempo, o transtorno dissociativo de identidade foi conhecido como “transtorno de múltiplas personalidades”. Esse ainda é o termo mais popular, mais fácil de reconhecer e mais utilizado fora do contexto clínico. O problema é que ele simplifica demais algo que é, na prática, muito mais complexo.
Na prática, não existem várias “pessoas completas” vivendo dentro de alguém, como se fossem personagens independentes que entram e saem de cena com clareza. O que existe é uma fragmentação da identidade, uma descontinuidade na forma como a pessoa se percebe, organiza-se internamente e se relaciona com suas próprias experiências. O termo técnico atual já aponta para isso. Não são múltiplas personalidades, mas uma identidade que, em algum momento da vida, dividiu-se para continuar funcionando.
Entre o cinema e o exagero
Em Fragmentado, vemos uma representação genial de James McAvoy que se tornou extremamente popular. O personagem apresenta múltiplas identidades com características muito distintas, algumas com comportamentos extremos e até com diferenças físicas marcantes. O filme é eficiente como narrativa, a gente se prende o tempo todo à trama, esperando o que a próxima cena nos revelará.
Mas, como referência clínica, o filme é meio problemático, pois reforça uma associação que não corresponde à realidade da maioria dos casos: a ideia de que pessoas com transtorno dissociativo de identidade são perigosas, imprevisíveis ou violentas. Além disso, exagera a forma como essas identidades se manifestam, criando uma espécie de espetáculo psicológico que se afasta bastante do que se observa na prática.
Mas esse tipo de representação não surgiu ali.
Em Psicose, de Alfred Hitchcock, um clássico do cinema, já vemos uma confusão entre diferentes transtornos sendo apresentada ao público como se fossem a mesma coisa. O próprio título do filme em português do Brasil já é um problema, pois foi traduzido como “psicose” e o original é “Psycho”, que seria “psicopata”, o que também não é uma explicação para o Transtorno Dissociativo de Identidade. Ao longo dos anos, essa mistura de conceitos ajudou a consolidar uma imagem distorcida que persiste até hoje e talvez isso explique por que o transtorno parece mais comum do que realmente é.
O que o diagnóstico realmente descreve
Do ponto de vista clínico, o transtorno dissociativo de identidade é extremamente raro. Eu mesmo talvez nunca tenha visto pessoalmente um caso real. Ele não aparece com a frequência que o cinema sugere, e quando aparece, muitas vezes não é reconhecido de forma imediata justamente porque não se apresenta de forma caricata.
De acordo com os critérios diagnósticos do DSM-5-TR, alguns pontos são centrais:
Existe uma descontinuidade na identidade, caracterizada pela presença de dois ou mais estados de personalidade distintos, que podem envolver alterações na percepção de si, no comportamento, na consciência, na memória e até na forma de interagir com o ambiente.
Essas mudanças não são apenas subjetivas. Elas podem ser observadas por outras pessoas ou relatadas pelo próprio indivíduo como uma sensação de perda de controle sobre si.
Outro ponto fundamental são as lacunas de memória. A pessoa pode apresentar dificuldade em recordar eventos do dia a dia, informações pessoais importantes ou acontecimentos passados, de uma forma que não pode ser explicada por esquecimento comum.
Além disso, esses sintomas causam sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida.
E, por fim, o quadro não pode ser explicado por práticas culturais ou religiosas aceitas, nem pelo uso de substâncias ou outras condições médicas.
Ou seja, não se trata apenas de “agir diferente”.
Existe uma ruptura na continuidade da experiência subjetiva.
Quando a divisão é uma forma de proteção
Um dos pontos mais importantes para compreender o transtorno dissociativo de identidade é sua relação com experiências traumáticas, especialmente na infância. Quando uma criança é exposta a situações intensas de dor, medo ou ameaça, e não possui recursos psíquicos suficientes para elaborar aquilo, a mente pode recorrer à dissociação como uma forma de proteção. Em termos simples, é como se determinadas experiências fossem “separadas” do restante da consciência para que a pessoa consiga continuar funcionando. Essa divisão não acontece de forma consciente, é uma estratégia de sobrevivência.
E, ao longo do tempo, pode se estruturar de maneira mais complexa, dando origem a diferentes estados de identidade que carregam memórias, emoções e funções específicas. O que, de fora, pode parecer estranho ou incompreensível, muitas vezes é, na prática, uma tentativa da mente de lidar com algo que foi, em algum momento, insuportável.
Nem toda divisão é um transtorno
É importante dizer que nem toda experiência de “se sentir diferente” ou de agir de formas distintas em contextos diferentes é um transtorno dissociativo de identidade. Nós todos temos variações no nosso comportamento. Não somos exatamente a mesma pessoa no trabalho, com amigos, em família ou quando estamos sozinhos. Isso faz parte da flexibilidade saudável da identidade. A diferença está na continuidade. No transtorno dissociativo de identidade, essa continuidade se rompe de forma mais profunda, acompanhada de lacunas de memória e sensação de não reconhecimento de partes da própria experiência.
E talvez seja aqui que outra obra ajude a pensar, mesmo que de forma mais simbólica.
Quando a divisão vira narrativa
Aqui pode até ser que tenha um spoiler, mas o tempo já perdoa. Em Clube da Luta, vemos um personagem que constrói uma outra identidade como forma de lidar com conflitos internos, frustrações e um vazio existencial. Não se trata de um retrato clínico de transtorno dissociativo de identidade, mas funciona como metáfora.
A ideia de que, em determinados contextos, a mente pode criar versões de si mesma para sustentar aquilo que não está conseguindo integrar.
No cinema, isso vira narrativa.
Na vida real, isso pode virar sintoma.
Checkpoint Final
O ponto mais importante desse texto não é diferenciar o que é real do que é ficção, embora isso já seja bastante relevante. A questão mais profunda é entender por que essas histórias nos chamam tanto a atenção.
Existe algo inquietante na ideia de não sermos inteiramente um só, de termos partes que não acessamos, experiências que não integramos completamente, sentimentos que ficam isolados. No transtorno dissociativo de identidade, isso aparece de forma mais intensa, mais estruturada, mais disruptiva. Mas, em alguma medida, a experiência humana também envolve lidar com partes de si que nem sempre se encaixam perfeitamente. A diferença está no grau, na intensidade e no impacto e talvez a pergunta que fica não seja sobre quantas partes existem em nós.
Quanto conseguimos reconhecer, integrar e sustentar aquilo que faz parte da nossa própria história?

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!