Quando comecei a estudar sobre o Mercado e a Indústria de jogos uns 10 anos atrás via muitos desafios, principalmente com relação ao desenvolvimento de jogos. Hoje temos um mercado global enorme, que tem mais de 200 Bilhões de dólares de faturamento, no Brasil mais de 1000 empresas de jogos, mas quando olho pro meu estado, eu sinto uma parcela de culpa que como agente e promotor da cultura de jogos, eu posso ter falhado. Eu olho para as pessoas que são responsáveis por promover a indústria por aqui e vejo que poderia ter sido muito melhor. E sinto muito pelas histórias que já escutei e vi acontecerem de empresas que começaram como um sonho e acabaram como um pesadelo. Mas, isso pode e deve mudar. Agora quero tentar colocar uma análise, baseada no artigo do alunos da UFC, na matéria do jornal Diário do Nordeste e claro do que posso compartilhar.
O Ceará possui desenvolvedores de jogos. Possui cursos universitários, comunidades, eventos, grupos de estudo, associações, estúdios e iniciativas de formação. Também possui profissionais capazes de atuar em programação, arte, game design e diferentes áreas da produção de jogos digitais. Sem falar dos eventos e festivais que promovem e apoiam a entrada de profissionais no mercado.
O problema é que possuir talento não significa, necessariamente, possuir uma indústria sustentável.
Essa talvez seja uma das leituras mais importantes que podem ser feitas a partir dos resultados do Censo Fortaleza Game Dev 2024, pesquisa que ouviu 101 participantes e procurou compreender quem são, como trabalham e em quais condições vivem os profissionais ligados ao desenvolvimento de jogos de Fortaleza e Região Metropolitana. Os números chamam atenção.
Entre os participantes, 56% não obtêm renda proveniente do desenvolvimento de jogos. Apenas uma parcela pequena consegue se dedicar integralmente à atividade e os vínculos formais de emprego também são pouco frequentes. Ao mesmo tempo, aproximadamente três quartos da amostra possuem ensino superior completo ou em andamento. Temos, portanto, um paradoxo interessante.

Há formação. Há pessoas produzindo. Há conhecimento técnico. Mas ainda existe dificuldade para transformar essa capacidade produtiva em atividade econômica sustentável.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a discussão sobre o futuro dos games no Ceará precise avançar.
Precarização é parte do problema, mas não explica tudo
Uma reportagem publicada recentemente pelo Diário do Nordeste destacou principalmente as condições de trabalho reveladas pelo levantamento. O recorte é importante. A dificuldade de obter renda, a baixa presença de benefícios trabalhistas e a necessidade de conciliar o desenvolvimento de jogos com outros empregos mostram que existe fragilidade nas relações econômicas do setor. Mas existe outra leitura possível desses mesmos dados.
Quando 56 pessoas afirmam não receber recursos provenientes da produção de jogos, a pergunta seguinte não deveria ser apenas “por que esses profissionais não possuem empregos?”
Também precisamos perguntar:
Por que os jogos que estão sendo produzidos ainda têm tanta dificuldade para gerar receita?
Essa pequena mudança de perspectiva leva a discussão da relação trabalhista para a própria estrutura econômica do ecossistema. E alguns dados do censo ajudam a perceber isso. Enquanto programação, game design e artes aparecem com forte presença, apenas três participantes disseram atuar em áreas comerciais ou de Business Development. Além disso, 93,1% dos respondentes acumulam mais de uma função durante o desenvolvimento. É possível produzir um excelente protótipo dominando programação, arte e design. Transformá-lo em produto é outra história.
É necessário entender mercado, precificação, propriedade intelectual, contratos, marketing, publishing, distribuição, aquisição de usuários, relacionamento com plataformas, negociação com investidores e planejamento financeiro. Um ecossistema de desenvolvimento de jogos não pode ser composto apenas por pessoas capazes de fazer jogos. Ele também precisa de pessoas capazes de transformá-los em negócios.
Talvez o Ceará já tenha passado da primeira fase
Durante muitos anos, um dos principais desafios da indústria brasileira de jogos foi a formação de profissionais. Era necessário criar cursos, capacitar desenvolvedores, ensinar ferramentas e mostrar que produzir videogames poderia ser uma profissão. Essa etapa continua importante, principalmente para ampliar diversidade e permitir o ingresso de novos profissionais. Mas o próprio Censo Fortaleza Game Dev sugere que, no cenário local, a formação já não pode ser vista isoladamente como solução para todos os problemas. O levantamento identifica uma comunidade jovem, altamente escolarizada e fortemente relacionada às instituições de ensino superior. Ao mesmo tempo, registra dificuldades de acesso a financiamento, profissionalização das relações de trabalho e retenção de talentos. Isso significa que podemos estar diante de uma mudança de fase.
O desafio deixa de ser apenas: “Como formar mais desenvolvedores?”
E começa a ser: “Como fazer com que desenvolvedores consigam permanecer no Ceará desenvolvendo jogos?”
São problemas completamente diferentes. E as soluções para isso passam por várias pessoas, entidades e representações. Mas o que mais me preocupa é saber que por anos temos perdido talentos, possibilidades e muitas pessoas que ou migraram, ou desistiram de atuar no segmento de desenvolvimento de jogos.
Da formação para a produção
Sabemos que a cadeia produtiva de jogos envolve muitass questões, mas uma política de formação normalmente termina quando o aluno aprende e o mais importante, ele saberá que não será fácil, mas terá meios e ferramentas para manter seu negócio. Ou pelo menos deveria.
Uma política industrial precisa continuar depois disso. O desenvolvedor precisa transformar uma ideia em protótipo. O protótipo precisa tornar-se produto. O produto precisa encontrar financiamento. Depois precisa encontrar mercado, distribuição e compradores. E, em algum momento desse processo, alguém precisa pagar salários. Essa cadeia é particularmente importante porque desenvolver um jogo exige algo que profissionais trabalhando à noite ou nos fins de semana possuem em quantidade limitada: tempo.

Manter outro emprego para financiar um projeto próprio pode funcionar durante a fase inicial de experimentação. É muito mais difícil sustentar esse modelo durante dois ou três anos de produção. É justamente nesse intervalo entre o protótipo e o produto comercial que muitos projetos independentes desaparecem. Por isso, bolsas de desenvolvimento, laboratórios e editais podem cumprir um papel importante, desde que estejam conectados a uma estratégia posterior de comercialização. O Ceará já começa a experimentar iniciativas nessa direção. Mas precisamos de projetos sérios que mostrem explicitamente como objetivo transformar talento criativo em negócios sustentáveis. Até temos algumas iniciativas recentes, que preveem tanto incubação de criadores quanto aceleração de estúdios, incluindo capacitação em planejamento estratégico, internacionalização, captação de recursos e relacionamento com mercados. Mas pelo que notamos esse trabalho aparentemente precisa ser melhor direcionado.
Essas ações são importantes justamente porque atacam uma lacuna revelada pelo censo. O próximo passo é compreender seus resultados. Quantos projetos chegaram ao mercado? Quantos conseguiram investimento? Quantos estúdios aumentaram faturamento? Quantos empregos foram criados? Quantas empresas continuam funcionando dois anos depois? São muitas perguntas que precisamos muito ter as respostas. Em outras palavras: precisamos começar a medir não apenas quantas pessoas foram capacitadas, mas quantos negócios se tornaram sustentáveis.
Temos que entender que financiar protótipos é importante mas financiar empresas é diferente
O Ceará também avançou nos mecanismos públicos de fomento. Em 2023, o Edital de Apoio ao Audiovisual Cearense destinou R$ 1 milhão ao setor de games, contemplando 20 projetos de protótipos e dois projetos de criação e produção de jogos independentes. Alguns desses títulos posteriormente chegaram a eventos nacionais e internacionais. É um avanço importante. Mas existe uma diferença entre financiar um projeto e financiar uma empresa. E considerando as demandas para um estado tão rico culturalmente, essa quantia não consegue bancar realmente os projetos e empresas por um tempo considerável para a produção de jogos que realmente saiam para o mercado.
Um edital permite que um estúdio desenvolva determinado jogo. Uma indústria sustentável exige que esse mesmo estúdio sobreviva depois do lançamento e consiga iniciar o projeto seguinte. Ecossistemas maduros precisam de diferentes formas de capital para diferentes estágios: recursos para protótipos, investimento semente, aceleração, crédito, investidores privados, publishers, coprodução e acesso a mercados internacionais. O Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, aprovado em 2024, reconheceu oficialmente essa indústria no país e estabeleceu, entre suas diretrizes, justamente o estímulo ao ambiente de negócios e à oferta de capital para o empreendedorismo inovador. O desafio agora é fazer com que essas possibilidades cheguem às empresas.

Os números não mentem, a questão da profissionalização, criação de um cenário mais favorável e de levarmos em conta o problema da desprofissionalização e melhor qualificação, notoriamente indica problemas que precisam de mais atenção. Sendo assim, um dos desafios transformar os profissionais autônomos em trabalhadores formais e, com uma condição de estar atuante somente no que precisa, bem como a promoção da sustentabilidade para os negócios próprios que poderiam absorvem essa demanda em nosso estado, isso é objetivo já presente no plano setorial da indústria de jogos do Ceará mas que aparentemente passa ainda ao largo de tornar-se uma realidade. Aqui cabe a pergunta, o que realmente é feito pelas representações que deveriam fomentar, organizar, integrar e tornar o cenário mais favorável?
Também precisamos criar mercado dentro do Ceará
Existe ainda outra oportunidade que merece atenção. Nem todo estúdio precisa sobreviver exclusivamente lançando o próximo grande sucesso da Steam. Tecnologias e competências desenvolvidas para games podem ser utilizadas em educação, treinamento corporativo, saúde, turismo, patrimônio histórico, indústria, realidade virtual, simuladores e comunicação. O próprio poder público pode atuar como comprador de soluções interativas. Universidades e empresas locais também podem demandar serious games, simuladores e experiências imersivas. Esse mercado B2B pode funcionar como uma segunda fonte de receita para estúdios enquanto suas propriedades intelectuais próprias são desenvolvidas.
Para empresas pequenas, ter contratos de prestação de serviços não representa abandonar a produção autoral. Pode ser justamente o mecanismo que paga as contas enquanto o próximo jogo é produzido.
Universidade, indústria e comunidade precisam estar no mesmo pipeline
As universidades desempenham papel especialmente importante nesse cenário. O censo demonstra a forte relação entre os desenvolvedores e as instituições de ensino. Isso representa uma vantagem competitiva significativa para o Ceará. Eu mesmo posso mencionar casos de sucesso com meus alunos da Unifor, que em pouco mais de 2 anos já estivemos em 2 Game Jams, e já alcançamos a marca de mais de 30 jogos iniciados, 2 jogos alcançando as finais da Game Jam Plus, e a realização de nossa própria Jam.

Mas é possível avançar. Game jams, grupos de desenvolvimento, disciplinas e projetos acadêmicos podem ser o início de um pipeline que continue por incubadoras, aceleradoras, estúdios, publishers e mercado internacional. Nesse modelo, o estudante não termina um projeto simplesmente porque terminou o semestre. Projetos promissores podem continuar. Equipes podem formar estúdios. Protótipos podem disputar financiamento. Pesquisas podem gerar tecnologia. Empresas podem oferecer problemas reais para alunos e pesquisadores. É a diferença entre possuir iniciativas de games e possuir um ecossistema de games.
E Fortaleza não pode ser todo o Ceará
Outra questão importante surge justamente do alcance do levantamento. Apesar de oferecer informações extremamente relevantes sobre o cenário cearense, o Censo Fortaleza Game Dev possui forte concentração na capital e Região Metropolitana. Mas há produção acontecendo também no interior. Universidades, institutos federais, cursos de tecnologia e comunidades existentes em cidades como Sobral, Quixadá, Juazeiro do Norte e outras regiões podem ajudar a formar novos polos. O próprio ProGames-CE estabelece uma perspectiva estadual e prevê descentralização das iniciativas do setor. Isso significa que um próximo mapeamento poderia ampliar uma pergunta importante: Quantos desenvolvedores de jogos existem realmente no Ceará?
E, além disso: Onde estão, no que trabalham, quais empresas existem, quanto faturam, quantos empregos geram e quais são seus principais mercados?
Sem dados recorrentes, políticas públicas são construídas sobre fotografias antigas. O Censo Fortaleza Game Dev deveria, portanto, ser entendido não como ponto de chegada, mas como início de uma série histórica.
O verdadeiro indicador de sucesso
Há uma tendência natural de medir ecossistemas tecnológicos pela quantidade de eventos realizados, pessoas capacitadas, cursos oferecidos ou projetos inscritos em editais. Todos esses números são relevantes. Mas talvez seja necessário acrescentar outros.
– Quantas empresas surgiram?
– Quantas sobreviveram?
– Quanto faturaram?
– Quantas pessoas conseguiram deixar o segundo emprego e trabalhar exclusivamente com jogos?
– Quantos jogos foram publicados comercialmente?
– Quantos contratos internacionais foram assinados?
– Quanto de propriedade intelectual produzida no Ceará permanece pertencendo a empresas cearenses?
– Quantos profissionais formados pelas universidades locais estão trabalhando para empresas locais?
Esses indicadores revelariam algo que nenhum evento isolado consegue demonstrar: se estamos construindo uma indústria sustentável.
O Ceará não precisa começar do zero
É importante reconhecer que parte dessa estrutura já está sendo construída. Existe um Plano Setorial, existe a articulação entre associações, universidades, comunidades, Sebrae e poder público, existem mecanismos de fomento e surgiram programas de incubação e aceleração. Mas é preciso uma maior integração, unir mais forças para conseguir fazer parte dessa estratégia acontecer e assim procurar conectar REALMENTE formação, inovação e mercado. Portanto, talvez a discussão atual não deva ser sobre a ausência absoluta de políticas para games. A questão mais interessante é outra: essas iniciativas conseguirão produzir continuidade?
Porque uma indústria não é construída por um edital, uma game jam ou um programa de capacitação. Ela surge quando esses elementos passam a formar uma cadeia. Formação gera talento. Talento encontra equipes. Equipes criam empresas. Empresas encontram financiamento. Financiamento gera produtos. Produtos encontram mercado. Mercado gera receita. Receita gera empregos. E empregos permitem que novos profissionais permaneçam criando.
Os dados do Censo Fortaleza Game Dev mostram que o Ceará já conseguiu desenvolver uma parte importante dessa equação: as pessoas estão aqui. O próximo desafio é garantir que elas possam ficar. E, principalmente, que consigam viver do que criam.
Vejam mais sobre o assunto no Podcast Quebrando o Controle:
Referências e fontes consultadas
RODRIGUES, Matheus Serafim et al. Censo Fortaleza Game Dev 2024. Pesquisa apresentada no SBGames 2026 sobre o perfil socioeconômico, profissional e as condições de atuação dos desenvolvedores de jogos de Fortaleza e Região Metropolitana.
Acessar o artigo nos Anais da Sociedade Brasileira de Computação (SBC)
RODRIGUES, Matheus Serafim et al. Censo Fortaleza Game Dev 2024. Versão integral do levantamento, publicada em junho de 2026. DOI: 10.13140/RG.2.2.27071.06562.
Acessar o Censo Fortaleza Game Dev 2024
MACIEL, Paulo Roberto. Criadores de jogos vivem sem renda própria e sem auxílio trabalhista no CE, revela estudo. Diário do Nordeste, 2 out. 2026. Reportagem sobre as condições de trabalho e geração de renda identificadas pelo Censo Fortaleza Game Dev.
Acessar a matéria do Diário do Nordeste
TRINDADE, Wanderson. Mais da metade dos dev games de Fortaleza não vive da própria indústria, revela censo. O POVO+, 29 jun. 2026. A reportagem apresenta dados sobre renda, dupla jornada, multidisciplinaridade e baixa presença de profissionais de negócios no ecossistema local.
Acessar a matéria de O POVO+
CEARÁ JOGOS. Estratégia para fortalecer quem cria, produz e inova. Portal que reúne documentos, iniciativas e ações relacionadas ao desenvolvimento da indústria de jogos no Ceará, incluindo o ProGames-CE, mapeamentos e programas de desenvolvimento empresarial.
Acessar o portal Ceará Jogos
GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ — SECRETARIA DA CULTURA. Secult Ceará investe e joga valendo para fortalecer a indústria de games no estado. 24 dez. 2025. A publicação apresenta iniciativas como o Hub de Jogos do Ceará, programas de aceleração, formação e o financiamento destinado ao desenvolvimento de games no Estado.
Acessar a publicação da Secult Ceará
BRASIL. Lei nº 14.852, de 3 de maio de 2024. Cria o Marco Legal para a Indústria de Jogos Eletrônicos e estabelece princípios e diretrizes relacionados ao desenvolvimento do setor, ao ambiente de negócios e à ampliação da oferta de capital para empreendedorismo inovador.
Consultar a Lei nº 14.852/2024 no Portal do Planalto

Professor, Analista de Sistemas, Presidente da UCEG e pai do Icaro.
“Os jogos podem mudar o mundo”