Por Um Punhado De Bits: Beam Me Up, Scotty

Renato Degiovani Últimas notícias
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Na semana que passou estive “ocupado” com dois aplicativos de celular que eram, para mim, novidades. Um deles serve para identificar plantas e o outro para identificar pedras. Foram parar na mesma pasta onde já estão o aplicativo de controle de pressão arterial, o de medição de ruídos ambientes e o de medição da qualidade das redes e repetidoras ao meu alcance.

Some-se a isso o som personalizado de chamadas, à lá comunicador Star Trek e a semana toda foi gasta com essas brincadeiras. Me senti o próprio Dr. Leonard McCoy com seu inseparável tricorder ou o S’chn T’Gai Spock, fazendo análises locais. Próxima semana, quem sabe, e a brincadeira vai para um aplicativo tradutor para conversar com gatos. Eu ia baixar o de Klingon, mas como não conheço nenhum Klingon, vou ficar com o de gato mesmo.

Quem diria que estamos cada vez mais perto do holodeck e do teletransporte e, falando em futuro dos games, a constatação que chego vendo esses brinquedinhos, é que a nossa ideia de diversão, em especial a digital, está sofrendo uma grande mudança principalmente na forma de acontecer. E nem estou colocando aqui na equação o uso das IAs, mas já que falamos nelas:

Hello computer… Vamos ver como o GPT responde a uma solicitação de modelos, mecânicas e formas de jogos digitais ainda não explorados no mercado. Da enorme lista apresentada relacionei algumas sugestões, acrescentando comentários sob meu ponto de vista.

  1. Jogos com narrativa orgânica emergente baseada em sentimentos do jogador

A maioria dos jogos usa escolhas binárias ou scripts pré-definidos para conduzir a narrativa. Uma fronteira ainda pouco explorada é a de jogos que “mapeiam emoções reais do jogador”, como frustração, tédio, empolgação ou tristeza, utilizando biossensores, padrões de voz ou comportamento in-game. A narrativa poderia se adaptar sutilmente a essas emoções, sem que o jogador perceba diretamente o “gatilho”, criando experiências altamente personalizadas e emocionalmente ressonantes.

Bacana, mas não é bem isso que estou procurando, ou melhor, intuindo. Usar biossesores seria adicionar hardware à plataforma e isso é complicado. Padrão de voz, só se o jogo fosse todo comando por ela. Comportamento in-game pode ser. Teria que ser moldado dentro da narrativa, para captar essas “emoções” do jogador. Complexo, mas possível.

  1. Jogos que evoluem em tempo real com base em dados do mundo real

Embora existam jogos que usam localização ou clima, a ideia de um jogo que “muda suas regras, personagens e missões com base em eventos globais, sociais ou ambientais” é praticamente inexplorada. Imagine um jogo onde crises energéticas, eleições ou eventos climáticos reais afetam a economia e a cultura do mundo do jogo. Isso criaria um dinamismo social e político inédito em jogos digitais.

Gostei do formato mas me parece invasivo demais afinal, coletar esses dados no device do jogador pode ser complicado. O mundo anda meio paranoico com essa questão do sigilo de dados e não somos nenhuma big tech pra burlar esses quesitos. Talvez mais à frente essas questões estejam mais consolidadas, embora a proximidade da (meio flopada) COP 30 poderia servir como um incentivo extra.

  1. Jogos que têm fim, mas continuam a existir

A maioria dos jogos termina com o fim do enredo ou da progressão mecânica. Um modelo inédito seria o de um jogo que conclui sua narrativa, mas continua a “viver” no sistema, enviando mensagens, mudando seu conteúdo internamente, ou até interagindo com o jogador anos depois. Ele poderia envelhecer junto com o jogador, adaptar-se a fases da vida ou reaparecer com novos significados, como um diário interativo que nunca se apaga completamente.

Essa é fácil. Não é uma grande novidade e já vi alguns experimentos do tipo “o jogo dá pra jogar uma vez só”. Escrevi um texto, anos atrás, sobre a morte nos games e como ela poderia ser um elemento componente da narrativa, em dois modelos distintos: num o jogador morre, mas a “experiência” dele pode ser reaproveitada em outra partida e em outro o personagem atual morre e o jogador precisará jogar com outro personagem, sendo que a interação entre ambos pode ou não ter ocorrido em algum momento.

Gosto desse modelo porque não é invasivo, não utiliza dados pessoais e nem coleta informações “por fora”. Adoro simular a realidade mas também não vamos exagerar porque a vida está ai mesmo pra ser vivida. Dá pra fazer. Dá pra experimentar imediatamente.

Conclusão: embora os jogos digitais tenham explorado inúmeras possibilidades, ao longo dos anos, ainda existem territórios imensos a serem desbravados. A integração mais profunda entre jogador, ambiente e tecnologia abre espaço para experiências mais pessoais, emocionais, filosóficas e até perturbadoras. Inovar nesses campos pode não apenas reinventar a diversão, mas também transformar o jogo em um meio de expressão ainda mais poderoso — e talvez até em uma nova forma de arte existencial.

A menos, é claro, que o desenvolvedor queira continuar criando games plataforma nos quais os anjinhos barrocos infantilizados combatem os malvadões, que querem destruir tudo, em nome do progresso. Se ao pensar num jogo hoje você usa como inspiração determinante um modelo já consolidado, quando ficar pronto ele já estará defasado, tanto mais quanto mais demorar para fazê-lo.

Ah, e o teletransporte nisso tudo? Bem, seria bacana ir de casa até a entrada de todas as feiras de games que acontecem mundo afora, sem aquela chatice de fazer mala, comprar passagem, chegar no hotel, etc.

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