Por Um Punhado De Bits: Fim Do Mistério

Renato Degiovani Últimas notícias
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Nunca escondi de ninguém que sempre fui fã do BIG Festival raiz durante toda a sua existência, embora tenha sido um crítico contumaz da estrutura e principalmente da falta de validação e de prestígio aos desenvolvedores tupiniquins. Principalmente depois que virou essa coisa disforme e sem sal, inserida na Gamescom Latam.

Todos os anos, após o evento, o pessoal da administração publica os números do B2B e sempre são na casa dos milhões de dinheiros. Negócios pra ninguém botar defeito, bem no estilo “olha como fomentamos a circulação de uma montanha de grana”.

O B2B, pra quem não sabe, é uma parte do evento onde interessados de ambos os lados (desenvolvedores e empresas) conversam frente a frente (numa mesa) sobre o que poderiam fazer em termos de “negócios”. O tempo é bem curto e a cada rodada trocam-se os interessados. Obviamente, bem antes do evento acontecer, são marcadas essas “reuniões rápidas” entre interessados. É bem no estilo atirar para todos os lados pra ver se acerta alguma coisa.

A minha dúvida (inocente) sempre foi essa: de onde vem esses números alardeados com pompa e circunstância? Xis milhões em negócios, Xis milhares de acordos firmados. Em tempo de informática, minha primeira imagem era a de um centro de processamento que esmiuçava com uma lupa essas reuniões. Claro, jamais aceitaria que eram números “compucabalísticos”, jogados ao vento sem maior precisão. Mas de onde vinham?

Este ano fui contemplado para a feira, por cortesia, com uma credencial B2B e embora não tenha interesse algum em “fazer negócios” neste esquema, fiquei muito curioso para dar uma olhadinha no esquema. E não é que achei a resposta?

Dias após o evento recebo um formulário, como participante B2B, a ser preenchido com as minhas avaliações do evento. As duas perguntas que mais me chamaram a atenção foram:

Qual o volume total de negócios realizados durante o evento em US$?

Em comparação com o valor esperado ANTES da realização do evento, você considera os resultados obtidos como: muito bom, bom, razoável ou ruim?

Nascido, criado e doutrinado no meio empresarial há pelo menos três gerações, sei muito bem o quanto um “dono” de empresa está disposto a revelar sobre seu faturamento ou expectativas, ainda mais não sendo uma pesquisa anônima. Não que seja tudo mentira, mas cá entre nós: você acredita mesmo em números apresentados sem uma contrapartida que prove de fato as cifras mencionadas, ainda mais sabendo que a concorrência pode “estar olhando”?

Posso ir para o evento com a expectativa de fechar um milhão de dólares em distribuição de um jogo (tanto de um lado quanto de outro) e isso pode se realizar, ir além ou nem chegar perto. A questão é: o quanto eu vou estar disposto a confessar sobre o resultado? Se for muito alto, posso chamar a atenção da turma do “taxxad”; se for muito baixo fica parecendo que não sou competente o suficiente. A maioria das pessoas não curte muito confessar um fracasso – Linkedin que o diga.

Então a tendência é buscar uma relação de compromisso, ou seja, algo plausível mas dentro da média. E aí, na somatória de todos os formulários, aqueles números mirabolantes começam a aparecer. Não foram inventados na reta final, mas podem ter nascido de uma super valorização das possibilidades.

Entenda como isso é bom (como diria aquela blogueira da globo): esses números nos dão uma ideia de como o mercado está saudável, mas, saudável por saudável, os números atuais do IBGE do Porchamann também falam isso da economia e sabemos muito bem, na pesquisa semanal do supermercado, que as coisas não estão tão bem assim.

Há quem advogue que esses números, ainda que irreais, acabam alavancando algum negócio no mercado, meio que por inércia. Claro, também podemos acreditar em papai noel e no coelhinho da páscoa, mas a bigorna da realidade tente a ser bem pesada, quando cai em nossa cabeça.

Não quero ser ave de mau agouro, mas números reais fariam muito mais pelo mercado do que números fantasiosos. Por exemplo: quantas reuniões foram agendadas e quantas aconteceram de fato. Dessas, quantas fecharam algum negócio e quantos ficaram apenas no “ora vejam que legal”?

São perguntas mais fáceis para um empresário (todo desenvolvedor é no final das contas um empresário também) responder. Mas elas são problemáticas porque dão um raio x do próprio evento, ou seja, no comparativo ano a ano ou com outros eventos do mesmo tipo, pode-se chegar à conclusão que o problema é o evento e não o mercado. E isso complica as coisas para quem faz e promove o dito cujo. Não estou afirmando que “acordos” legítimos não aconteçam, mas para pra pensar um pouco e veja que o reflexo de números gigantes, na economia desse setor, não parecem fazer muito sentido.

A grande maioria dos estúdios, em um ano de evento, nem sempre se faz presente nos anos seguintes. Sem contar as notícias de demissões, fechamento, etc. Assim como em qualquer outro segmento os bons resultados não estão disponíveis para todos. Ser mais honesto com esses números talvez melhorasse a performance geral do setor. Mas isso é só um chute meu.

No final das contas fico com a impressão que todo mundo sabe disso mas faz parte do jogo fingir que não estamos pisando em areia movediça. Da minha parte nunca dei muito crédito a pesquisas, sejam elas de que natureza forem, e sempre deixo como recomendação uma que minha avó (empresária) me dava: bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

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