Quase uma década depois…

Renato Degiovani Últimas notícias
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Dias atrás, revendo um material para a seção Eu Joguei, do site IndieBrasilis, encontrei um texto que escrevi em 2017, sobre o lançamento do game Vida. Curiosamente o texto permanece atual, principalmente nas críticas quanto ao lançamento em si. Aproveitando o momento, relembrei outros dois grandes jogos de 2014 e 2015, que acompanhei durante quase todo processo de finalização e lançamento: Toren e Aritana.

Vale a pena, neste espaço, não apenas relembrá-los mas elencar perguntas como: o que aconteceu com esses jogos? Onde foram parar seus autores? Quais lições podemos tirar desses três casos?

Basta uma pesquisa rápida pela internet e o leitor vai encontrar um calhamaço de sites de jogos e de notícias com reviews, entrevistas, oba obas, lero leros e é claro, menção a vários prêmios de qualidade e excelência. Todos merecidos? Sim, com certeza. Mas… Dez anos depois, seguindo as palavras do criador do Aritana, para uma matéria no G1: “Lançar um game é um salto no abismo”, fiquei com a sensação de que o abismo é bem mais profundo do que parecia no começo.

Não entendam mal minhas palavras, todos são excelentes jogos mas a vida comercial deles deixou claro que nenhum dos três teve fôlego para uma franquia de sucesso mundial. Vamos um a um.

Vida, de Flávio Creasso – Lembro dos primeiros vídeos no Youtube, onde o Flávio e sua equipe elencavam questões referentes ao desenvolvimento do jogo. Dificuldades com a engine (Unreal) e todo o trabalho braçal que é fazer um game 3D. Embora o pessoal estivesse animado, dúvidas ainda pairavam no ar sobre se o jogo realmente faria sucesso ou não.

Flávio, pessoalmente, sempre teve uma atitude crítica em relação aos 30% da Steam e isso fez com que o jogo fosse lançado apenas pela brasileira Nuuvem, com um alcance infinitamente menor. Custando na época R$ 14,99 (o que hoje corresponderia a R$ 26,85 corrigido pelo índice poupança nova) ainda é vendido na loja da Nuuvem por R$ 4,99. Não há como saber quantas cópias foram de fato vendidas e nem se o empreendimento resultou em ganhos significativos.

Flávio se envolveu em alguns outros projetos de jogos, mas nenhum teve a repercussão estrondosa do seu RPG Vida. Atualmente, segundo o LinkedIn, Flávio atua como Game Developer na Kokku.

Vida foi desenvolvido por uma única pessoa durante 7 anos

Toren, de Alessandro Martinello – O game foi um dos mais esperados lá nos idos de 2015, não apenas pela qualidade de suas imagens mas principalmente pela imersão que ele prometia (e a gente queria muito). Elogiado também como um dos primeiros games br a ser financiado pela lei Rouanet, as expectativas eram bem altas no seu lançamento, que demorou um pouco para se concretizar.

Foi o próprio Alessandro quem disse, numa entrevista recente, que os devs devem desenvolver apenas jogos que gostam muito, porque a quantidade de vezes que ele terá que jogar pode comprometer qualquer grau de paciência e disposição do dev. Talvez por causa disso, pouco se ouviu falar do jogo nos anos seguintes.

Segundo conversas informais, Sandro (como é chamado pelos amigos) confidenciou que a verba da Ruanet pagou integralmente pelo desenvolvimento do jogo e portando, numa simplificação, tudo mais que vendeu foi lucro.

Hoje Toren pode ser encontrado na Steam por R$ 19,99 e vale a pena ter o jogo na sua biblioteca. Após o projeto, Martinello passou uns anos desenvolvendo jogos para o mercado asiático, para (nas palavras dele) se capitalizar para o seu recente e estrondoso sucesso comercial: Mullet Madjack que também está na Steam, por R$ 49,95.

Uma rápida pesquisa na SteamSpy dá conta do jogo ter, neste momento, entre 100k e 200k owners, sem contar as versões para console. Só esse número já é um feito memorável para qualquer dev tupiniquim e deveria ser tratado com o respeito merecido.

Toren foi o primeiro jogo brasileiro a ser financiado pela Lei Rounanet

Aritana, de Pérsis Duaik – Lembro como se fosse hoje, em pleno BIG Festival (quando ainda era realizado no Centro Cultural São Paulo) um grupo de tímidos desenvolvedores do interior de São Paulo, apresentando um jogo com temática indígena, ambientado na nossa cultura. Não sei precisar se era o único presente no festival, com essas características, mas certamente mereceu o prêmio de melhor do júri popular, desbancando os favoritos dos organizadores.

Havia (como sempre nesses casos) muita expectativa quanto ao desenrolar da vida comercial do jogo e embora uma sequência tenha sido produzida alguns anos depois, ela não atingiu o mesmo grau de notoriedade do jogo anterior.

Aritana também aparece na SteamSpy com valores entre 0 e 10k owners e pode ser encontrado na Steam por R$ 19,00.

Aritana e a Pena da Harpia tinha uma forte temática indígena e foi bastante celebrado no lançamento

Se olharmos individualmente para os jogos, não há como negar que tiveram um relativo sucesso comercial. Se pagaram as contas do desenvolvimento, fica em aberto, afinal quase ninguém gosta de falar publicamente sobre números e valores por estas bandas.

Mas, do ponto de vista de franquias internacionais fortes, os três ficaram nos devendo uma presença mais relevante no mercado mundial. Isso não é nem bom e nem ruim, mas parece ser uma característica presente na grande maioria das produções brasileiras. As razões para ser assim? Vai saber!

Pessoalmente prefiro esse modelo de ter resultados mas não chegar ao topo da montanha, onde os holofotes podem até nos cegar temporariamente. Há de fato uma espécie de udigrudi brasileiro, onde as relevâncias são levadas em conta, ainda que para a população jornalística massiva, se não for um GTA br, então não vale divulgar.

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