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Renato Degiovani Últimas notícias
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Após duas revisões completas do livro Indie Brasilis, no qual foram elencados cerca de 60 jogos nacionais representativos da evolução da nossa indústria, pude constatar algumas coisas interessantes. A que mais me chamou a atenção, tratarei aqui.

Ao contrário de outros setores da produção cultural brasileira, como música, literatura, artes cênicas, por exemplo, na área de games não é comum creditar a autoria de um jogo a uma pessoa, especialmente na capa. Normalmente isto é feito em nome de uma empresa, ainda que fictícia, em boa parte dos casos. Para entender esse fenômeno, precisamos retroceder aos anos 80 quando tudo isso começou.

Antes da produção física em larga escala e sua consequente venda em grandes magazines e lojas especializadas, os jogos produzidos iam parar nas revistas impressas, fascículos colecionáveis ou nos livros de informática, em especial naqueles focados na programação, onde eram sempre creditados a um autor. Assim como em textos técnicos ou didáticos, a autoria sempre foi de uma pessoa e nem sequer havia ainda o conceito de game designer.

Na verdade, é um equívoco considerar a priori o game designer de hoje como “o” autor (e vice-versa). Um game designer só será o autor do jogo se ele for contratado para criar o jogo, pois a função primordial dele é a de “produzir” ou desenvolver as técnicas, operações e etapas que comporão o produto final. Mas isso é outra discussão.

No começo dos anos 1980 não existia ainda a figura da micro empresa, do simples nacional e muito menos do micro empreendedor individual de forma que um CNPJ, que na época era chamado de CGC (Cadastro Geral de Contribuintes) normalmente só era concedido a empresas de capital limitado, com contrato social em nome de pelo menos dois cotistas ou sociedade anônima, com vários sócios e que é uma modalidade bem mais complexa de arranjo empresarial. Em ambos os casos, envolvia muito tempo e dinheiro para constituí-las e mantê-las “em dia” com os vários fiscos.

Daí nasceu o uso corriqueiro de dar nomes fictícios, como se fossem empresas, a empreendimentos que se pretendiam mais sérios do que simplesmente fazer jogo por curtição. No final das contas dava um ar profissional às iniciativas e fortalecia os grupos iniciantes. Tal prática não deixou de existir por completo, até porque ainda é relativamente caro e complicado abrir e manter um CNPJ válido. Na grande maioria dos casos atuais, nem vale a pena o esforço para tal, já que a venda física e portanto a circulação de mercadorias na indústria de jogos (ICM) praticamente deixou de existir. Ainda hoje, vivemos num semilimbo no qual, em muitos casos, vale mais a pena andar nas sombras do que à luz do dia

Talvez seja isso que tenha, de certa forma, inibido muito a assunção de autoria pessoa física, já que preservar o autor seria desejável, mas isso teve e ainda tem um preço razoavelmente elevado. Somos capazes de citar mais de meia dúzia de autores estrangeiros, tidos como verdadeiros heróis do desenvolvimento de games e raríssimos nomes brasileiros. E isso mesmo quando trazemos ao debate títulos de grande sucesso de público e de vendas.

E por qual razão seria interessante termos mais autores? Por uma razão simples: não nos espelhamos em empresas mas em pessoas. A jornada de sucesso de um autor é muito mais relevante do que a de uma empresa. Empresas podem ser transacionadas a qualquer momento, seu nome nos créditos não. Ele estará lá para todo o sempre, ainda que a palavra sempre indique um tempo bem curto, na velocidade das coisas no mundo informatizado. Por causa disso é que as grandes empresas praticamente inviabilizam a exposição dos autores em seus produtos.

Resta então uma última questão a ser abordada: quem é de fato o autor? Como dito anteriormente, o game designer é o produtor do game, ainda que ele possa ser o autor também. O programador já foi considerado a figura mais relevante de uma produção mas com o avanço das linguagens e das ferramentas modernas de criação, ele passou a ser mais um profissional que faz parte da equipe de produção.

Em linhas gerais podemos dizer que autor é a pessoa que “cria” o conceito do jogo e o leva a um patamar mais alto do que a simples ideia. Não se trata de estabelecer mais ou menos relevância mas de identificar a assinatura do criador.

Por mais que um autor seja eclético, seu estilo sempre estará presente nas suas obras e seu exemplo pode servir de inspiração ou modelo. Precisamos de mais heróis, e principalmente de heroínas — não apenas por conta desse exemplo, mas também para fortalecer a ideia de que “se alguém pode, qualquer outro pode também”.