Por Um Punhado De Bits: Olhar E Não Ver

Renato Degiovani Últimas notícias
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Uma das poucas coisas boas de ter décadas de atuação no desenvolvimento de games é ter visto até elefante voando e não estou falando do Dumbo. Você consegue imaginar como era o mundo, nos longínquos anos 80, sem a internet? E sem os celulares? Não? Não tinha nem nascido antes desses eventos?

Se me concentrar por uns instantes, consigo lembrar como era a vida sem o gravador cassete, lá no começo dos anos 70. Também consigo lembrar de um tempo no qual não tinha telefone em casa e nem mesmo televisão, nos anos 60. Não porque eram luxos, mas simplesmente não existiam à disposição de forma fácil, no longínquo interior do estado de São Paulo. Também consigo lembrar a primeira vez que entrei num fliperama e mal tinha completado 18 anos, na primeira metade dos anos 70.

Primeiro contato com computador? Meus amigos da faculdade, no comecinho dos anos 80, nem acreditavam que eu tinha um microcomputador em casa, ou melhor, no apartamento, em pleno Rio de Janeiro. Como assim? Perguntavam se ele cabia no apartamento.

Sabem do que mais me lembro dos longínquos anos recentes? Icq, Netscape, Active Worlds, Mosaic, XTree, 3D Studio, Visicalc, Ventura Publisher e por ai afora. Hoje é tudo peça de museu. Ainda tenho um player de CD rom, 1x, dos idos dos anos 90. Os atuais PCs nem tem mais drives de DVD, outra tecnologia que se não foi totalmente pro espaço, está em vias de ir. Nem vou falar dos filmes 16mm, que era uma baita promessa, até o Super 8 acabar com a brincadeira e na sequência ser soterrando pelas fitas Betamax. Não, pera, pelas fitas VHS.

Presenciei desde o comecinho o nascimento, o auge e o final melancólico das revistas impressas de tecnologia, informática e games. Também vi nascerem as grande feiras, primeiro a Feira Internacional de Informática (nos anos 80 e na qual fui expositor em quase todas elas), depois a Fenasoft e agora as que estão na moda, como Gamescom e BGS. A lição que as primeiras a desaparecer deixaram? Se não houver renovação, a morte é certa.

O propósito aqui não é saudosismo mas chamar a atenção para uma coisa interessante: o mundo e o comportamento das pessoas mudaram bastante e nem sempre à reboque das mudanças tecnológicas. Quer um exemplo? Passamos a pouco mais de dois anos por uma pandemia que quase nos remeteu à idade das trevas, não tanto pelos problemas físicos, mas pelas decisões alopradas de muitos governantes e pelas alucinações de manada que vivenciamos. Se você acha que isso não impactou nosso modo de ver as coisas e principalmente de nos divertir (com games inclusive) então cuidado pra não perder o bonde da nova era.

Ainda não dá pra ver nitidamente esse novo mundo, onde as grandes redes de televisão não são mais tão grandes assim. Perderam em credibilidade e audiência apenas porque não entenderam os novos tempos. O tempo da informação descentralizada, na qual o mundo acontece instantaneamente diante dos nossos olhos, ou melhor, na tela do nosso celular. Lembrei da Guerra no Golfo, nos anos 90, que foi a primeira guerra transmitida pela tv ao vivo e em cores, na maioria da vezes em tons de verde.

Hoje em dia nos comunicamos por redes sociais, por vídeos no Youtube, Tik Tok, Instagram e outros menos badalados, mas com impactos nunca antes visto na história. O Desenho Industrial (ou Design) estabeleceu no começo do século 20 que a forma deriva essencialmente da função mas Nikolas Ferreira está ai pra provar que mais importante que a forma e, por tabela a estridência, é o conteúdo.

Parece pouco, mas não é! E isso nos leva a algumas possíveis conclusões: não demore mais que alguns meses na produção de um game – o comportamento das pessoas anda volátil; não tenha medo de experimentar novos modelos – as pessoas sentiram o gosto da moderna forma de se comunicar e não irá voltar atrás no tempo; tente não ser partidário mas aborde os temas mais espinhentos com abertura para possibilidades inclusive divergentes – as pessoas estão se cansando do discurso polarizado e monocromático. Por outro lado, vitimização e militância demais também anda dando chabu.

Aproveite a onda antes da arrebentação e será dos primeiros a surfar em águas mais prósperas (se elas de fato vierem). E se vale algum conselho na área do desenvolvimento de games, ou melhor, uma opinião sincera, encare o fato de que grandes franquias triple A já não são mais o olimpo maravilhoso a ser alcançado.

Em tempo: há um dito moderno que diz o seguinte: o arrebatamento já aconteceu. Se você não percebeu é porque foi um dos deixados para trás. E isso dá um baita jogo.

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