Por Um Punhado De Bits: A Galinha E O Mercado

Renato Degiovani Últimas notícias
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Era uma vez uma galinha. Não era uma galinha qualquer. Era uma galinha mineira, daquelas que ciscam com elegância, equilibrando o mundo no bico e a sabedoria no olhar. Vivia solta num quintal de chão batido, com um pé de jabuticaba de um lado e um cercado torto do outro. O sol nascia e ela ciscava. Chovia e ela ciscava. À noite, empoleirada, sonhava com milho. A vida era simples, mas plena.

Num belo dia, enquanto ela investigava uma minhoca rebelde, apareceu um sujeito engravatado com óculos enormes na cara. “Galinha, você está desperdiçando sua existência analógica. Venha comigo para o mercado global de games.” A galinha olhou de lado, com aquela cara de quem já viu muita promessa virar angu ralo. Mas como bicho curioso que é, resolveu seguir.

Foi assim que a galinha entrou no fantástico e promissor mundo das diversões digitais, ou mundo milionário dos games e das IPs universais.

Ali dentro, tudo era digitalmente exuberante. A fazenda era feita de polígonos brilhantes, as árvores tinham shaders realistas, o milho crescia em tempo real com física simulada. Ela tinha um avatar estilizado, com penas de neon e um bico cromado. O som ambiente era estéreo dinâmico, com trilha procedural assinada por um conhecido DJ finlandês. Tudo dentro da mais pura “modinha” vigente.

Mas, ao ciscar… nada. Não havia cheiro de terra, nem gosto de minhoca. O milho era NFT. A sombra era algoritmo. E, mais grave: nenhuma outra galinha respondia aos seus cocoricós. Estavam todas ocupadas monetizando o próprio avatar ou coletando itens mágicos.

Desiludida, a galinha mineira voltou ao quintal. Voltou à sombra da jabuticabeira. E ciscou. Ah, como ciscou! Como se dissesse: “o real pode ser rústico, mas tem alma”.

A hipérbole da galinha é, claro, apenas uma metáfora. Mas não tão distante do que vivemos na indústria dos games. Nos últimos anos, o universo dos jogos digitais foi invadido por promessas que vinham embaladas com o selo da inevitabilidade. O fascínio de obter sucesso no mercado global é uma dessas. O “próximo grande passo da indústria nacional”, diziam. Um mundo onde tudo se resolveria numa página de loja virtual.

Do ponto de vista de quem nunca viu a construção de um produto comercial pleno, a ideia parecia irresistível. Jogos que nunca acabam, com moedas internas, avatares vendáveis, experiências sociais integradas, diversidade total, propriedade digital e inclusão. Do ponto de vista técnico, um pesadelo de interoperabilidade e custos comprometedores. Do ponto de vista humano, uma abstração vazia.

Os jogos sempre foram bons em simular. Mas há uma linha tênue entre a simulação e a alienação. O que muitos esqueceram — ou fingiram esquecer — é que o que move o jogador não é a resolução 4K, nem o head tracking de última geração. É o engajamento emocional. É o desafio. É a história. É a presença.

Jogos não são sobre pixels, são sobre escolhas. A indústria mundial dos games tenta criar um playground eterno. Um espaço onde tudo é possível, mas nada tem consequência. E jogos sem consequência são como piadas sem timing: bonitos na teoria, entediantes na prática.

Enquanto os gigantes da tecnologia gastam bilhões modelando fazendas virtuais e cassinos em blockchain, a maioria dos jogadores só quer um bom jogo. Um loop de gameplay consistente. Um universo bem construído. Uma meta final que realmente lhe desafie. Só atirar, correr e coletar itens mágicos não é suficiente.

Voltando à nossa galinha mineira, a desconexão entre promessa tecnológica e experiência real fica ainda mais evidente. No br, onde a conexão ainda oscila entre cara e muito cara, onde o equipamento é luxo e não regra, onde o jogo indie precisa se equilibrar entre um edital maroto e o improviso financeiro criativo, vender um modelo global é como prometer avião a quem precisa de um trator.

A verdade é até simplória: a maioria dos jogadores não quer um universo digital paralelo. Quer jogos que façam sentido, que sejam acessíveis, que reflitam suas histórias, seus medos, suas alegrias. Jogos que abracem o regional, que saibam rir de si mesmos, que entendam que nem toda diversão precisa ser em alta definição. Os artistas podem pintar os bits digitais com cores, traços, com profundidade e relevo ou até mesmo com palavras, pois a relevância está no conteúdo e não na forma.

O mercado de games como o conhecemos está morrendo ou, ao menos, entrou em declínio. E talvez devêssemos agradecer por isso. A ressaca dessa utopia nos permite retomar o que importa. Jogos que contam boas histórias. Que desafiam com elegância. Que fazem o jogador sentir-se presente, não por estar cercado por belas imagens, mas por estar emocionalmente envolvido.

É hora de voltar a ciscar o chão. E reconhecer que há mais verdade em uma sombra de jabuticabeira do que em mil renders de realidade virtual.

Em tempo: se você leu até aqui esperando que eu explicasse a parte do “milho NFT”, lamento: até a galinha achou isso absurdo demais.